POSTADO EM 20/4/2010
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Ter 20/04/10
FIGURINHAS

E pronto, a febre das figurinhas tomou conta do país. Ontem numa importante reunião da sociedade dos ilustradores, em vez de se discutir assuntos importantes da classe, o pessoal estava trocando figurinhas desse álbum da Copa do Mundo--->
que acaba de ser lançado e já provoca crise de desabastecimento, porque a quantidade que chega nas bancas não está dando pra atender à demanda. Detalhe, não eram crianças trocando figurinhas, era um bando de marmanjos, alguns na casa dos 40, todos com seus álbuns na mão. E tinha um cara que nem era da associação mas se infiltrou na mesa que aproveitava a desculpa das figurinhas pra ficar dando em cima de uma gata que estava na reunião, filha de um respeitável ilustrador. Tem pai que é cego. Se eu tivesse uma filha bonita não ia deixar ela ficar trocando figurinhas com qualquer um.

Crianças caírem nesse conto do vigário ainda se entende, mas adultos?!! Vamos às contas. Se alguém conseguir o milagre de comprar um monte de pacotinhos sem nenhuma repetida, para completar o álbum gasta cerca de 100 reais. Mas é claro que isso não acontece. O normal é a vítima acabar fazendo um segundo álbum pra colar as duplicatas e morre pelo menos em 200, mesmo arrumando um amiguinho pra trocar. Imaginem o rombo que isso dá numa família de classe média, com vários filhos.

Agora, analisem o álbum. Vocês acham que esse álbum cheio vale 100 reais? Qual o custo de impressão disso? Pensem que com 100 reais dá pra comprar até um livro de arte. "Alguém" está ganhando MUITO dinheiro em cima disso.

Figurinhas existem mais ou menos há tanto tempo como as HQs e cinema. Datam de fins do século 19 ou início do 20, de acordo com o país. E nem sempre foram do jeito que são aqui.
As primeiras eram cards, vinham de brinde com alguns produtos como balas. Nos EUA ao que parece começaram com cards com jogadores de baseball.
<-----Achei um de 1869. Nesse país tradicionalmente os cards vinham acompanhando chicletes e coisas parecidas. As crianças se empanturravam dessas coisas que davam dor de barriga e trabalho garantido aos dentistas, e faziam suas coleções. Hoje esses cards raros valem milhões.

Depois pararam de fazer só cards de esportes e começaram a bolar cards com outras coisas. Aquele filme do Tim Burton, Marte Ataca-->
era originalmente uma coleção de cards. Mas na época (início dos anos 60) alguns pais e professores acharam os marcianos com cara de tarados, porque tinha umas mulheres gostosas nos cards, e reclamaram com o Ministério Público de lá e eles foram proibidos. Mas viraram cult, depois foram relançados em tempos mais permissivos e até criaram uns novos, como um que os Marcianos invadem o vestiário feminino.

No Brasil a onda começou mais ou menos do mesmo jeito, cards vinham de brindes com outras coisas, por exemplo marços de cigarros e até sabonetes, como as famosas Estampas Eucalol----->
que duraram exatos trinta anos (1925-1965). E balas também, como o álbum de 1934 A Holandeza (assim mesmo, com Z, brindes das balas do mesmo nome), e mais tarde o das Balas Ruth (início dos anos 50). Mais serviço garantido para os dentistas!

E pelo menos as crianças se animavam a tomar banho. Eucalol era campeão de vendas, acho que a fábrica faliu porque desistiram das estampas. eu mesmo parei de comprar sabonete e tomar banho quando elas acabaram.


O primeiro álbum com figurinhas vendidas em pacotinhos foi o da
<-----Branca de Neve, que a Editora Vecchi lançou em 1949, usando os cromos do filme recém-relançado de Walt Disney. A Vecchi, líder no segmento fotonovelas, era também líder no mercado de figurinhas por um bom tempo. Além de muitos filmes de Disney, lançou álbuns memoráveis, como os Ídolos da Tela e outros mais. Os Vecchi aumentaram consideravelmente sua fortuna graças a essa indústria.

Foi mais ou menos nessa época que começou a roubalheira. A Vecchi até que era uma editora honesta de figurinhas, mas outras que aproveitaram o filão começaram a apelar, lançando as chamadas "figurinhas difíceis", isto é, algumas figurinhas eram impressas em quantidades menores que as outras. Com isso todo mundo tinha as mesmas duplicatas e os trou... digo, crianças tinham que comprar milhões de pacotinhos a mais. Até que alguém deu um basta nisso, denunciando no Ministério Público, e foi um deus nos acuda entre os fabricantes de figurinhas, alguns quase chegaram a ir para a cadeia. Finalmente estabeleceram leis que obrigavam as editoras a imprimir quantidades rigorosamente iguais de todas as figurinhas.

Mas é claro que sempre davam um jeito de burlar um pouco isso. O truque usado até hoje pelas editoras é imprimir em quantidades iguais, mas não distribuir em quantidades exatamente iguais ao mesmo tempo. Qualquer pessoa que coleciona figurinhas sabe que as figurinhas que começam a aparecer mais repetidas quando o álbum é lançado ficam mais raras no fim, e as mais raras no início aparecem aos montes no fim.

E teve aquela história das figurinhas pornográficas do álbum do E.T.--->
em 1982 ou 83. As figurinhas eram impressas na Vecchi, que já estava falindo mas ainda fazia serviços gráficos pra fora. Só que os salários estavam atrasados. De sacanagem, alguns gráficos meteram folhas impressas de revistas de mulépelada no meio das folhas de figurinhas, as folhas foram cortadas e mandadas pros presidiários empacotarem (sim, naquela época o trabalho de empacotamento era manual, feito aproveitando mão de obra barata de presidiários). Ninguém percebeu a sabotagem. Até que alguns criancas compraram pacotinhos do E.T. nas bancas e começaram a encontrar umas xoxotas no meio dos ETs, a Rio Gráfica ganhou o apelido de Rio Porno-gráfica! Mais uma vez o Ministério Público foi acionado e a Rio Gráfica teve que se explicar mas acabou tudo em pizza... exceto pra mim.

Na época eu já tinha sido despedido da Vecchi e trabalhava como colaborador tanto da Rio Gráfica como do Pasquim, e fiz uma história do Vavá o Ceguinho onde ele era presidiário empacotador de figurinhas e empactou por engano umas pirocas no meio dos pacotinhos. Acontece que um diretor da Rio Gráfica leu esse Pasquim e não gostou nada da brincadeira e mandou me expulsarem do quadro de colaboradores. Felizmente esse mesmo diretor aprontou alguma e foi expulso da Rio Gráfica alguns meses depois, e graças a isso fui des-expulso e pude voltar a escrever os roteiros do Recruta Zero que fazia pra lá.

Mas, voltando ao assunto original, o álbum da Copa do Mundo. Fiquei com vontade de acionar o Ministério Público, mas não por estarem explorando os pobres trouxas que gastam em média 200 reais cada um, mas porque o dito álbum não tem quase nenhuma palavra em português. Na capa tem escrito "livro ilustrado" (porque é obrigatório) e o preço está em português. E a terceira capa, que ensina os trou... digo, colecionadores, a pedirem à editora as figurinhas que faltam, está toda em português. Mas essa página que dá a chance de comprar as que faltam também é obrigatória. Ou seja, se não fossem as coisas obrigatórias o álbum seria todo em inglês. Ora, onde já se viu isso? Estamos no Brasil e aqui a gente fala português. Aí vão dizer "é mas acontece que esse é um lançamento mundial, todos os países estão publicando igual... duvideodó. Na França pelo menos a sucursal da Panini, se é que existe por lá, estaria toda na cadeia, pois é proibido escrever em outras línguas que não em francês. Hot dog lá deve ser "chien chaud" ou algo assim. Franceses são francófonos e francófilos. Lá um atentado à língua pátria dessa monta nunca ficaria impune.

Já aqui é bagunça, ninguém liga pra isso. Nada me irrita mais que aqueles anúncios do Polishop vendendo produtos como o "perfect peeler". Ora, por que não traduzem o nome dos produtos? Tá certo que é legal saber outras línguas, mas estão nos obrigando a falar inglês à força.



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